21 10 2016

Uma reflexão sobre o direito ao próprio corpo

Meu corpo, minhas regras- além do assédio

Dia desses rodou na timeline do Facebook um post com prints de uma conversa entre mulheres conversando sobre quererem cortar o cabelo mas o marido/noivo NÃO DEIXAR. Na legenda, apenas a frase “feminismo pra quê?”. Isso é o tipo de coisa que sempre me assusta e me faz perceber o quanto estou num lugar privilegiado da sociedade: No meu ciclo de amigas e conhecidas, o namorado não deixar você cortar o cabelo ou qualquer coisa do tipo é um ótimo motivo pra mandar ele pra China- falando aqui educadamente – e seguir a fila.

E aí você vê o comentário de uma mulher dizendo de forma que faz parecer natural que APANHOU do marido quando cortou o cabelo. Ela diz com todas as letras e com risadinha no final, achando bem natural e aconselhando a amiga a não fazer o mesmo. E aí seu mundo desaba.

Eu estou longe de achar que o machismo está perto do fim. Sempre estive. Por ser feminista e pesquisar muito sobre, ler muito sobre e ter contato constante com outras feministas, tenho acesso constante a números, a dados, a histórias que não me deixam ter toda essa esperança. Mas é  muito difícil ver uma mulher achar normal e aceitável apanhar do marido por cortar o cabelo- ou por outro motivo qualquer que seja- e não se assustar.

E nesse caso, ainda eram mulheres “muito distantes” de mim. Mulheres que não faço ideia de quem são, de onde são de que parte do país vinha. E aí eu entrei, por curiosidade e pra pesquisar, em um grupo sobre contracepção não hormonal. E aí, mais uma vez, meus privilégios foram esfregados na minha cara.

Eu namoro um cara que nunca cogitou fazer nada sem camisinha. Que me manda mensagem pedindo pra comprar quando ele não tem. E, apesar de saber que poucas das minhas amigas tem “coragem” de comprar camisinha – já falo mais sobre isso- muitas falam com todas as letras e deixam bem claro: ou é com camisinha ou não vai acontecer nada. Se o cara não quer usar camisinha, ele que procure outra.

Ao entrar nesse grupo, o choque número 2 – ou número 1, não sei exatamente a ordem-: dezenas de mulheres por dia falando sobre o namorado/marido/ficante não querer usar camisinha. Maridos que dizem que “parar o anticoncepcional é forçar uma gravidez”. Homens que ainda não entenderam que evitar uma gravidez não é missão só da mulher e que a camisinha é muito mais segura pros dois por não ter efeitos colaterais.

No grupo estão mulheres que tem consciência dos riscos do anticoncepcional (trombose, embolia pulmonar e outras coisas). Que vêem todos os dias casos gravíssimos e que QUEREM parar o anticoncepcional e procurar outros métodos, mas, ainda assim, não conseguem bancar isso com seus parceiros. E muitas que acham NATURAL o marido não DEIXAR ela parar de usar anticoncepcional. Mais uma vez, o homem exercendo poder sobre o corpo da mulher. Se sentindo dono. E muita gente achando natural. E muita gente não percebendo o quão abusivo isso é. Sim, se seu marido/namorado/noivo/companheiro não deixa você tomar uma decisão que só diz respeito ao seu corpo, este é um relacionamento abusivo.

Mas eu não vim aqui falar sobre relacionamentos abusivos, nem sobre cortes de cabelo, nem sobre anticoncepcional, nem sobre camisinha. Também não é sobre o privilégio que tenho por estar em um meio onde essas coisas já são consideradas absurdas. A minha reflexão aqui é sobre direito e PODER sobre o próprio corpo. E, pra isso, vou dar o terceiro exemplo e o que mais me assusta.

Nesse grupo que já citei, diversas mulheres relatam sobre as experiências delas ao pedirem para seus ginecologistas para pararem de tomar anticoncepcional. O erro já tá na primeira frase: pedirem. O corpo é da mulher e é ela quem deve decidir se vai ou não enchê-lo de hormônios. Mas ainda fica pior: pelo menos uma vez por dia, aparece por lá um caso absurdo de ginecologistas que inventam, omitem e distorcem informações para que a mulher não pare com o ac.

Vamos pensar: já é difícil ir contra o seu parceiro, simplesmente por não querer causar uma briga e por ter sido criada em uma sociedade que te ensina que você deve sempre agradar o homem – que se ele não gosta de camisinha, acha que é “chupar bala com papel”, tá tudo ok, você que tome anticoncepcional. Agora imagine ir contra um médico, que estudou por anos e trabalha para te dar informações sobre aquele determinado assunto?

Teoricamente, um ginecologista é a pessoa mais confiável pra te dar informações e te orientar quanto a métodos contraceptivos. Porém, por N motivos que vão de religião à convênio com clínicas de anticoncepcional, isso não é o que acontece na prática. Mulheres relatam, todos os dias, coisas como:
-“O ginecologista me disse que não posso parar o AC porque nenhuma mulher tem vida normal sem anticoncepcional e nenhum homem aguenta mulher sem anticoncepcional” (Oi? Como é que as mulheres viviam antes dele e muitas ainda vivem? Ah tá, são as loucas né? Mulher é descontrolada e precisa de doses diárias de hormônios pra continuar bela, recatada e do lar, né?).
“O ginecologista, em minha primeira ida, sem me examinar ou pedir exames, disse que não posso ficar sem anticoncepcional porque tenho ovários policísticos- fiz exames depois com outro gineco e não tenho.”  1- ele agora prevê ovários policísticos? A visão dele vem com ultrassonografia? 2- Ovários policísticos podem ser tratados sem ac. O ac só mascara eles, e por isso é aconselhado procurar um endocrinologista ao descobrir que tem.
“O ginecologista me disse que o que dizem sobre as possíveis consequências dos anticoncepcionais  é mito, coisa de quem não estudou.” –Aqui ele tá omitindo uma informação importantíssima e que está presente até mesmo na BULA dos anticoncepcionais. Não vou nem falar sobre as mil pesquisas, casos e tudo o mais… Tá até na bula.
“A gineco me disse que diafragma NÃO EXISTE MAIS.”  então o que milhares de ginecologistas que são contra o anticoncepcional recomendam, medem e etc é o quê? E milhares de mulheres do grupo usam e aprovam também. Como é mesmo? Não existem?
– “O médico me disse que não podia colocar DIU porque meu útero é pequeno. Fui em outra e estou com meu DIU em um tamanho menor há 1 mês”/”A gineco não quis colocar o DIU porque ela não acha eficiente”/“O ginecologista me disse que o DIU pode causar infertilidade e por isso não DEIXA suas pacientes colocarem” – Novamente, médicos mal informados ou mal intencionados… acho que não preciso nem falar nada, né? Tem vários tamanhos de DIU, a eficácia dele é de 99,4% e ele não causa infertilidade se usado corretamente. São dados científicos.

E o que todos esses relatos nos mostram? Médicos interferindo ou tirando o poder de escolha de suas pacientes. O corpo é da mulher e o médico deveria apresentar a ela todas as alternativas disponíveis e orientá-la… Não definir por ela e distorcer, omitir e criar informações para convencê-la do que ele quer.

Quando a gente lê ou ouve o tão falado “Meu corpo, minhas regras” a gente sempre pensa nos caras escrotos que nos assediam na rua por usar roupas curtas. A gente pensa nos milhões de casos de estupro. Pensa no marido que bate na mulher ou a agride sexualmente. A gente não pensa no cara que não quer que ela pare com o anticoncepcional porque ele não quer usar camisinha. E, além disso, a gente nunca pensa no medico/na médica que manipula informações pra te fazer acreditar no que ele quer. Mas temos que começar a pensar.

Mulher: se o corpo é seu, não é seu marido, seu médico, sua mãe nem ninguém que vai resolver por você. Se as consequências serão no seu corpo, a decisão é sua. Não aceite que tirem o seu poder sobre ele. Você tem direito de decidir pelo que considera mais seguro, mais confortável pra você – e, pra isso, pesquise muito. Estude. Pense. Não acredite em tudo que dizem… A Internet é uma ferramenta maravilhosa pra nos ajudar a nos libertar, vamos usá-la.

2 Comentários

2 Comentários em "Uma reflexão sobre o direito ao próprio corpo"

  1. Gabriela diz:

    Amei o post! Realmente é uma decisão muito pessoal e ninguém deveria interferir nisso. Essa dos homens “não aguentarem mulheres sem anticoncepcional” foi a pior… http://www.alemdolookdodia.com

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  2. Helena Krauel diz:

    Tantas meninas e mulheres precisam dessas informações, se sentem tão pressionadas pelo namorado… Já passei por isso, mas ainda bem que é passado, porém ainda tenho pesadelos horríveis 🙁 não gosto nem de lembrar… Graças aos céus meu namorado atual é maravilhoso!!!

    Beijinhos, sucesso!! Com carinho, Menina Borboleta.
    http://meniborboleta.blogspot.com.br/

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