14 07 2015

Não seria eu…

_DSC0926Mas se não fosse todo esse drama e essas lágrimas, não seria eu. E se não fosse esse cabelo que insiste em se partir ao meio, não seria eu. Se não fosse o tic de jogá-lo pro lado sempre que vou entrar em algum lugar ou ser fotografada, quem seria eu? Não seria eu se não fossem as olheiras provocadas pelas noites em que troquei o sono pelo papel e a caneta. Se não fossem as risadas fora de hora, as gargalhadas mais altas do que o planejado, os risos contidos por uma vergonha boba que vem não sei de onde. Sem minha ansiedade que toma conta e sem as unhas roídas, sem minhas mãos enrolando uma mecha do meu cabelo o tempo inteiro. Sem as mãos geladas e sem os abraços quentes. Sem minhas horas e horas caladas, e sem os minutos em que a voz aparece e preciso dizer tudo o que posso e o que quero antes que ela suma de novo. Se não fosse meu esmalte vermelho descascado, não seria eu. Sem as malas que arrumo em cima da hora, sem os dias que só o celular e um fone de ouvido importam na bolsa, sem os dias que só aquele livro tem lugar. Sem a mania de tirar o óculos em todos os momentos importantes, não faço ideia de quem seria eu. Sem o forró de olhos fechados no corredor da escola e sem a dança do ventre no meio da sala depois que todos dormem. São tantos detalhes de mim que, sem eles, não seria eu. Se não fossem as folhas soltas e embaralhadas pelo quarto com os trechos das músicas que mais ouvi essa semana, vamos lá, você sabe… Simplesmente não seria eu. Se não fossem as mensagens de “te pego em meia hora” da minha tia e se não fosse a falta de planejamento que mata a minha mãe, se não fosse o pé na estrada e esse coração cigano, não, não mesmo… não seria eu. Sem todos meus textos pra lá de repetitivos e melosos – deus me livre! – não seria eu. Sem o batom vermelho que me faz mais segura, sem os anéis e sem o pé no chão. Se não fossem todas as crenças. Se não fossem as cartas que eu encaro desde pequenininha, se não fosse o incenso de todo sábado, se não fossem todas as fogueiras e os temperos, as pedras, se não fossem as mandalas e as essências, sem os florais, não seria eu. Sem toda a paixão, sem todo o desejo, sem toda a entrega… Sem todo o sentir. Não seria eu. Sem todas as janelas, sem os trens, sem os carros, sem os barcos e os chalés, sem todos os colchões improvisados no meio da sala. Sem todos os carnavais não seria eu. Sem os sorrisos, sem as noites na cama da minha mãe sem deixá-la dormir, sem as conversas sentada no fogão-à-lenha que viram a noite, sem os dias acordando tarde e levantando mais tarde ainda. Sem todos esses pequenos pedaços tortos de mim, não. Não seria eu.

8 Comentários

8 Comentários em "Não seria eu…"

  1. Que texto lindo amei.
    E me fez pensar na música da Clarice Falcão (que por sinal é minha paixão).
    Parabéns

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    Laura Reply:

    Hahah, obrigada!
    Fic feliz que tenha gostado… Também amo Capitão Gancho ❤
    Hahah… Beijos!

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  2. Váh disse:

    Que texto lindo ♥
    Eu adoro textos assim bem pessoais e falando dos nosso detalhes, do nosso jeito torto e estranho de ser. Aliás, pode parecer estranho mas se não fossem essas peculiaridades não seríamos nós. Parabéns Laura pelo texto!

    http://heyimwiththeband.blogspot.com/

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    Laura Reply:

    Fico muito feliz que tenha gostado ❤
    É verdade!
    Obrigada,
    Hahah… Beijos!

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  3. Andrea disse:

    Que texto lindo!! Também acho que são essas pequenas particularidades que nos definem <33

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    Laura Reply:

    Hahah, obrigada, fico feliz que tenha gostado!
    Beijos!

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  4. Adriana Silva disse:

    Descobri agora o seu blog e estou encantada! E esse texto, em especial, chamou-me muita atenção… aliás, por mais “estranhos” que sejam, o que seria de nós sem os nossos detalhes? Hahahah Bjo ❤

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    Laura Nolasco Reply:

    @Adriana Silva, Seja bem vinda, e fico muito feliz que tenha gostado…
    Hahah, não é msm? Obrigada!
    Beijos!

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